Arquivo da Categoria ‘Vivências’

O lugar

Segunda-feira, 17 de Maio, 2010

Desde o primeiro post declarámos o nosso investimento afectivo em Istambul que marca necessariamente o modo como vivemos a cidade e como a contamos. Assumimos, desde logo, que os sentimentos e as emoções afectam os nossos textos e as nossas fotografias. Num exercício de objectividade procuramos na Wikipedia a descrição da sua geografia e recolhemos uma imagem de satélite.

Diz a Wikipedia que a cidade de Istambul está dividida em duas partes pelo Bósforo que é o estreito que liga o Mar da Mármara com o Mar Negro. Uma parte da cidade fica na Europa e outra na Ásia tornando Istambul na única cidade do mundo que está situada em dois continentes.

Chama-se Corno Dourado à entrada do Bósforo que divide a cidade e que forma um porto natural que abrigou barcos gregos, romanos, bizantinos e otomanos durante milhares de anos. É um estuário com a forma de uma cimitarra que liga o Bósforo precisamente no ponto em que o estreito entra no mar da Mármara.

Ao vermos a imagem de satélite de Istambul e ao lermos a descrição geográfica da cidade compreendemos que afinal as nossas fotografias e os nossos textos não são tão “suspeitos” como pensávamos.

Aquele chão …

Domingo, 9 de Maio, 2010

Todas as inaugurações das nossas exposições de fotografias são acontecimentos especiais por tudo o que está envolvido na sua concepção e preparação, mas sobretudo pelos pequenos nadas (que são pequenos “tudos”) que acontecem no encontro inaugural.

No sábado, o fórum da FNAC de Sta. Catarina foi-se enchendo de amigos, de curiosos ocasionais, de amantes de Istambul que procuravam reconhecer a cidade visitada, de amigos fotógrafos, de mestrandos turcos em universidades do Porto, de turistas acidentais que passaram e foram ficando.

O samovar trazido pela Associação Luso Turca lembrava a promessa de um chá no fim da sessão e os doces lokum cor-de-rosa brilhavam em cima do piano coberto. Apercebemo-nos, pouco antes de começar, de uma falha: a música de fundo era um jazz de qualidade mas o momento precisava de outro som, achávamos nós. Mas há falhas felizes: o Pedro providenciou um som múltiplo de várias bandas turcas que se reuniram no CD “Twilight Istambul”. Este som mostrou o seu efeito nas pessoas que literalmente esgotaram o stock de exemplares disponíveis.

Na nossa intervenção não poderíamos deixar de convocar o Tiago Salazar, companhia nos cinco dias em Istambul, reforçando ainda mais o sentido do título de um dos seus livros “Viagens sentimentais”. Remetemos o nosso percurso da melancolia ao nosso guia, Pamuk, que continua a dar-nos a conhecer a cidade mesmo depois de a termos deixado. Nas caras de tantos percebemos o reconhecimento que o nome dos lugares provocava e ousamos dizer que as saudades andavam por aqueles olhares que se iam perdendo nas imagens e nas palavras. Na hora, não pudemos deixar de olhar com um pedacinho de inveja para a Alice que há dois meses teve o privilégio de ver Istambul coberta de neve.

Mas foi à volta do chá e dos lokum com sabor a rosas que os encontros e reencontros se reforçaram, que as conversas se multiplicaram ao longo de mais de uma hora. Os amuletos contra o mau-olhado iam sendo guardados nas carteiras e nos bolsos – “Não somos supersticiosos mas mal não faz e bem nunca se sabe”.

Mas nestes encontros inaugurais há sempre um momento especial (que nos perdoem todos os outros momentos): um visitante desconhecido abordou-nos e apontando para uma das fotografias perguntou se “aquele chão” era o chão do primeiro andar da Hagia Sophia.

Dissemos que sim, admirados pelo reconhecimento daquele mármore cheio de veios partidos pelos passos de tantos e pelos tremores de terra. E com um “Bem me parecia!” desapareceu. Não sabemos quem era aquele que fixara como nós um pedaço de chão apesar do esplendor dourado das cúpulas, das colunas majestosas, e das luminárias da mesquita. Percebemos o sortilégio de uma cidade que provoca tantas experiências sentidas e partilhadas e que justifica que no Porto, para além da nossa exposição na FNAC, Teresa Lamas Serra na Axa Seguros fixe Istambul nas suas fotografias.

Huzun-Roteiro da melancolia em Istambul

Segunda-feira, 3 de Maio, 2010

Já confessámos: a nossa experiência em Istambul foi muito marcada pelo livro de Pamuk Istambul – Memórias de uma Cidade. Os relatos sobre as suas vivências na infância e na adolescência desenharam um mapa sentimental da cidade que procurámos explorar.

Foi o huzun, que o Google Tradutor traduz por tristeza, que mais nos sensibilizou levando-nos à descoberta das suas manifestações. E a questão começa logo na forma como o termo é traduzido e que Pamuk esclarece: “…  huzun (muito próximo de melancolia) é um sentimento interiorizado com orgulho e ao mesmo tempo partilhado por toda uma comunidade”. Não é, portanto, um sentimento individual, não é a melancolia experimentada por uma pessoa, é do huzun, da melancolia da cidade que se trata.

Em Istambul, procurámos os locais, as personagens, as situações identificadas por Pamuk em que o sentimento de melancolia se manifesta: os homens que pescam na ponte Galata, os barbeiros e os alfarrabistas que se queixam da crise, as crianças que jogam à bola na rua, as mulheres de lenço islâmico que esperam em silêncio o autocarro, as multidões apressadas para apanhar os vapur, os cemitérios no centro da cidade…E nesta busca, encontrámos outras formas que aos nossos olhos manifestam huzun.

Em Dezembro, na paisagem dominam o preto, o branco e os cinzentos que parecem contaminar as pessoas que usam roupas acinzentadas, indistintas. Os mármores gastos das fontes e das mesquitas reforçam o tom que domina a cidade. Este ambiente tinha para nós um sentido poético e desse ambiente só poderíamos fazer fotografias a preto e branco.

Vamos expor no Fórum da FNAC de Sta. Catarina, no Porto parte do roteiro da melancolia em Istambul. A exposição que inaugura no dia 8, sábado, pelas 17:00 fica por lá até ao dia 28 de Maio.

Poemas 1

Sexta-feira, 30 de Abril, 2010

Abrimos no Facebook um grupo a que chamamos Lá & Cá – Turquia & Portugal, um sítio onde as pessoas interessadas possam registar as suas impressões, experiências, fotografias e também textos, poemas, sugestões de livros sobre a cidade de  Istambul e/ou sobre a Turquia.

A primeira intervenção coube a Jorge Velhote que registou dois poemas de dois poetas turcos – Erdal Alova e Adnan Ozner – o primeiro traduzido por Fiama Hasse Pais Brandão e o segundo pelo próprio Jorge Velhote. Haverá melhor maneira de se inaugurar um espaço?

Aqui ficam os dois poemas que convocam o Bósforo, os céus nublados, as águas, os ventos e tanto mais em Istambul.

TESTAMENTO

Novembro, Novembro, estou certo
Numa noite de Novembro
Deve ter nascido Istambul… Ver mais
A sua parteira um sol ardente
Enrolou-a num cobertor lilás
Embalou-a no berço das ondas
Os ventos que sopram do norte
Segredaram-lhe o nome ao ouvido

Quando morrer
Enterrem-me nos céus de Istambul.

ERDAL ALOVA

Tradução de Fiama Hasse Pais Brandão

SECRETO CRESCIMENTO DO AMOR

Conto na minha rede durante o inverno os dias de cardumes frios.
Aquele verão não voltará!
Aquele amor vivido que não começou… Ver mais
está na minha memória como vela por acender.
Frente ao Bósforo que de boca rasgada
torce as águas
soletramos-lhes o nome do martim-pescador
pássaro daqueles lugares como veleiro branco.

A tónica do inverno é clara, uma voz isolada,
sem nos tocar nem tirar nada de nós sopra
directamente de lugares nunca visitados.
voa com a boca rancorosa do sexo.
Para nosso aviso arroja bem longe
o mapa de altas e baixas marés.
Nem expansão, nem recuo;
nós ao meio do imaginado
o tempo que penetra em dois,
dois pontos sonâmbulos.

Agora, até tu, para este poema
fechado em si mesmo, voz solitária,
no calendário dos cardumes frios de inverno
és só uma folha que cai por si própria.

O martim-pescador agora voará
para uma palavra nova num dicionário desconhecido.

ADNAN OZER

Tradução de Jorge Velhote

Dervixes

Segunda-feira, 22 de Março, 2010

Os espectáculos dervixe, associados directa ou indirectamente às actividades dos “Dias da Cultura Turca”e ao “Festival Pontes para Istambul”, tornaram presente a experiência que vivemos na cidade. É um facto que os dervixes fazem parte do imaginário associado à Turquia: fotografias, filmes e descrições várias criam expectativas e também perguntas a que não é fácil dar resposta. As vestes, o rodopio dos intervenientes, o cerimonial e, sobretudo, o sentido de tudo isto, tornam inevitável o desejo de ver os dervixes a agir num dos espaços de Istambul.

Alinhámos na proposta que então nos foi feita para assistir a uma actuação no Centro Cultural Hodjapasha que fica no sopé da colina de Sultanhamet, próximo da estação Sirkeci. O edifício era, até 1988, um banho turco chamado Hoca Paşa muito frequentado pelos istambulenses. A grande cúpula da sala principal, que aloja 550 espectadores, impressiona logo que se entra e o nosso olhar foi-se perdendo nas paredes de pedra talhada enquanto esperávamos.

Entrou primeiro a orquestra que tradicionalmente acompanha a sema, nome que designa a dança rodopiante dos dervixes. Seguiram-se os dez intervenientes que, em gestos lentos e silenciosos, se prepararam para a dança. Ao iniciar-se a dança-ritual acompanhada pela música densa e cadenciada, percebemos que o rodopio cada vez mais rápido tem um efeito hipnótico que de algum modo nos contagia. O círculo onde os dançarinos se movem, os movimentos rodopiantes sobre um pé, a forma redonda dos chapéus usados e os movimentos das saias simbolizam a perfeição, a busca do diálogo com a divindade, o desejo de paz e plenitude. Durante o ritual a mão direita dirige-se para o alto em busca da bênção divina e a mão esquerda em direcção ao solo simbolizando a dádiva.

Não sabemos se o Centro Cultural Hodjapasha é o melhor espaço para vivermos a experiência associada ao movimento Sufi. Contudo, quando na última noite regressávamos de um espectáculo de jazz, fomos surpreendidos por um som e uma imagem: num pátio de um restaurante sem clientes, um dervixe rodopiava sozinho ao som da música tocada por três executantes. Ficamos quietos, ao longe encostados ao corrimão de uma escada. Roubámos uma só fotografia daquele momento solitário e percebemos que num próximo regresso a Istambul iremos procurar outros sítios onde os rodopios dervixes aconteçam.

Alguns excertos de dança dervixe podem ser vistos AQUI 1 AQUIAQUI3

(mais…)

Gatos de Istambul

Sexta-feira, 12 de Fevereiro, 2010

Os gatos de Istambul são diferentes dos gatos das outras cidades, pelo menos daquelas  que conhecemos. Estão por todo lado e não fogem porque se sentem seguros nas relações com os humanos. Passeiam pachorrentos nas ruas como se estivessem em sua casa, dormem nos parapeitos das janelas, nas esplanadas, enroscam-se junto aos nossos pés. Estão nos jardins, nos mercados, nos cemitérios, nas soleiras das portas, nos pátios das mesquitas, no cais dos vapurs, estão em todo o lado. Aproximam-se de nós e convidam-nos às carícias. Ao fim da tarde, os comerciantes antes de fecharem as suas lojas deixam ração em pratinhos para os gatos da zona comerem. São gatos felizes porque não se sentem acossados.

Alguém comentava que uma cidade que trata  assim os gatos só pode ser uma boa cidade. Nós também achamos.

(mais…)

Istambul Memórias de uma Cidade 1

Sexta-feira, 15 de Janeiro, 2010

O livro de Orhan Pamuk começa assim:

Desde a minha infância, e durante muitos anos, sempre tive um cantinho da cabeça a ideia de que existia, algures nas ruas de Istambul, um outro Orhan que era igual  a mim, meu gémeo ou mesmo meu duplo. Não consigo recordar-me donde me veio ou me nasceu esta impressão.”

Três linhas abaixo, a fotografia de Pamuk com cinco anos. Uma ampla fotografia da cidade, a preto e branco, ocupa o topo das duas páginas seguintes. Está assim dado o tom: o livro ao longo das 362 páginas misturará a vida do escritor com a vida da cidade, a procura da sua identidade pessoal e a identidade de Istambul.

Deixamos aqui alguns títulos do índice: “Eu”; A descoberta do Bósforo; O meu pai, a minha mãe e a ausência de ambos; A minha avó paterna; A religião; O périplo melancólico de Gautier pelos subúrbios; O fumo dos barcos a vapor no Bósforo; Primeiro amor…

(mais…)

Muezzin

Domingo, 10 de Janeiro, 2010


Apesar de avisados, foi com sobressalto que acordámos às cinco da manhã com o chamamento à oração (adhan) do muezzin da mesquita anónima que ficava bem perto do hotel. Tínhamo-nos esquecido de fechar uma janela e a presença do muezzin era mesmo muito, muito próxima.

Cinco vezes por dia os crentes são chamados à oração diária (salat) pelos muezzin. Em grande parte das mesquitas os amplificadores de som nos minaretes ajudam aqueles que têm por função lembrar que é tempo de rezar.

No penúltimo dia da nossa viagem a Istambul, subimos à torre Galata durante um rápido entardecer. Subitamente, quando as luzes da cidade se começavam a acender, desencadeia-se um simultâneo chamamento dos muezzin das centenas de mesquitas dos dois lados da cidade. Não há fotografia nem texto que registe o impacto desse coro estranho e hipnótico para os nossos ouvidos. A nossa companheira de viagem, Teresa Lopes, registou no gravador do telemóvel o chamamento do “nosso” muezzin na última manhã da nossa viagem. Aí fica o som para provarem.

Ouvir o muezzin todas as madrugadas, lembrava-nos que estávamos muito longe de casa. E era bom.

(mais…)

Ao pequeno almoço

Sexta-feira, 1 de Janeiro, 2010

O dia começa com o pequeno almoço no terrace do Tashkonak Hotel . As janelas abrem-se para o mar de Marmara e para os telhados de Sultanahmet. Enchemos os pratos com queijo, pão, tomate e pepino porque não queremos perder tempo: à nossa frente tudo muda muito depressa!

O desenho das nuvens modifica a luz que transforma os espelhos no mar, o perfil dos barcos, a cor das casas do lado asiático de Istambul. Os vidros das janelas misturam mar, minaretes de mesquitas, sombras de gaivotas, árvores, céus …

A fotografia  começa ali, na sala do pequeno almoço, bem cedo pela manhã.

(mais…)