Arquivo da Categoria ‘Vivências’

No Nardis

Sábado, 4 de Dezembro, 2010

A ideia era voltar ao Nardis Jazz Club independentemente de quem estivesse a tocar. Subir a ladeira íngreme que leva à Torre Gálata e partilhar música naquele espaço parecia um bom programa para a noite.

Em cena, Benny Lackner Trio que esteve há poucos meses no Hot Clube em Lisboa. O pianista, que vai mudando de formação, apresentou-se com Mathieu Chazarenc na bateria e Phil Donkin no baixo , portanto, um alemão, um francês e um norte-americano num palco turco. Apesar de termos ido com três horas de antecedência para reservar mesa, só conseguimos lugar no “balcão” do clube-bar. Percebemos que éramos os únicos estrangeiros numa sala cheia.

A localização não escolhida revelou-se uma vantagem: o som subiu limpo até ao primeiro andar, e foi bom acompanhar os músicos numa perspectiva pouco comum. Visto de cima, o piano lembrou que é um instrumento de cordas.


Para recordar ou conhecer a música tocada pelas diferentes formações deste pianista ver e ouvir AQUI

Cemitérios

Segunda-feira, 22 de Novembro, 2010

Confessamos que gostamos de cemitérios. Mesmo antes de serem descobertos como espaços a explorar do ponto de vista turístico, visitámos cemitérios porque são lugares onde se manifesta a cultura de um povo, onde se compreende a relação entre os vivos e os mortos e onde a arte e a natureza se misturam de uma forma muito particular.

São quatro os cemitérios que mais nos marcaram: Père-Lachaise (para muitos, o lugar mais romântico de Paris), o cemitério de Cólon em Havana (com uma monumental estatuária), o cemitério de Swokopmund  na Namíbia (onde o apartheid se mantém após a morte) e o cemitério de Eyüp em Istambul. Deixamos para um outro post a visita a este lugar. O que nos marcou em Istambul foi a forma como os vivos convivem nos cemitérios no centro da cidade. É disso que vamos falar.

Um cemitério turco é uma floresta de colunas de mármore branco de diferentes alturas. Em princípio o tamanho da coluna corresponde ao tamanho real do morto ainda que haja excepções: o estatuto social elevado pode elevar o tamanho da coluna atingindo, no caso de alguns sultões, dimensões não humanas. As colunas que terminam num turbante sinalizam um túmulo masculino; os florões estão reservados às mulheres. Das inscrições incompreensíveis gravadas no mármore só retiramos o efeito estético. Passeámos sem reservas por entre a floresta de túmulos e árvores usufruindo do efeito da mistura das formas e das cores branco e verde.

Mas há muito mais: quando há 12 anos visitámos pela primeira vez a cidade, tivemos uma experiência que nos espantou no sentido literal do termo: em pleno cemitério havia uma casa de chá com uma agradável esplanada. Sentamo-nos numa mesa entre turcos que cavaqueavam vidas (achámos nós!) e pedimos um café e um chá de menta.

Renovámos esta experiência que nos trouxe de novo o sentimento único da relação entre viver e morrer. De facto, nunca convivemos desta maneira num lugar onde, geralmente, domina apenas o silêncio e o recolhimento. Não seria preciso mais para estes cemitérios nos marcarem. Por isso, voltaremos a trazer aqui estes lugares.

O tapete voador

Segunda-feira, 11 de Outubro, 2010

Os tapetes turcos estão em todo o lado: nas paredes, a forrar cadeiras e mesas, no chão das lojas, das casas, das mesquitas … Quando o muezzin apela à oração, são muitos os que desenrolam o seu tapete preparando-se para rezar.

Ir a uma loja de tapetes é a oportunidade para ouvir as histórias que os tapetes contam e que se confundem com a História da Turquia. Fomos a um dos muitos lugares aconselhados pelos guias e pelos locais. Subimos dois andares: os passos e as vozes eram abafados pelos tapetes de diferentes cores, tons e padrões que se organizavam em pilhas por todo lado. As paredes estavam cobertas pelas peças mais valiosas. Sentamo-nos no chão a ouvir.

A acompanhar o café que nos foi servido, o dono iniciou a sua performance, desdobrando tapete atrás de tapete.  Cada um tinha a sua história, a sua identidade que se exprimia na forma e conteúdo. De cada um, dizia das urdiduras, tramas, cortes e ataduras, dos diferentes tipos de nós (simples, duplos, simétricos e falsos)… Chamou a atenção para a arquitectura de cada um: os medalhões, as bordas, os cantos, as franjas. Falou das matérias de que são feitos, dos diferentes tipos de tear, das ferramentas, dos corantes que atribuem cores únicas a estas peças. Desocultou direitos e avessos.

Parte do seu discurso erudito escapou-nos, sobretudo quando fazia voar um tapete: bailarino, o tapete rodopiava no ar e aterrava aos nossos pés a uma distância conveniente.

Chegámos ao fim da sessão e não comprámos nenhuma peça, o que não provocou qualquer atitude de desagrado: tínhamos sido bons ouvintes, interessados e atentos. Da primeira ida a Istambul, trouxemos um tapete kilim de lã azul forte e magenta sob um fundo de seda beije que está à entrada da nossa casa. Na geometria dos seus desenhos, estão animais estilizados: o cão, o camelo, o leão, o veado e outros não identificados. Estão lá também escondidos quatro helicópteros e dois tanques, uma referência à guerra Irão-Iraque. As artesãs dissimularam na trama geométrica as suas preocupações infringindo as regras estabelecidas na concepção e fabrico do tapete tradicional. O nosso tapete testemunha que o protesto e a mágoa têm muitas formas de serem ditos.

Noite em Istambul 1

Quarta-feira, 29 de Setembro, 2010

Istambul tem muitas noites como as outras cidades e andar sem destino é um dos nossos programas nocturnos preferidos. Um dos percursos de que gostámos muito foi o que fizemos na primeira noite: a descida da Torre Galata até ao nosso hotel na zona de Sultanahmet onde moram a Mesquita Azul e Hagia Sofia.

As casas de madeira manchadas pelo tempo e pela luz amarelada dos candeeiros davam um ar irreal às vielas. Cruzamo-nos com pouca gente nas ruas estreitas sem automóveis até chegarmos à ponte Galata. Aí, como acontece ao longo do dia, a actividade é intensa: os pescadores não sossegam a armar os anzóis com o isco, a reparar o equipamento a ajeitar a posição das canas na esperança de peixe fácil.

Mas foi em  Sultanahmet que nos perdemos nas horas a percorrer ruelas com os minaretes das mesquitas a espreitarem por entre os telhados. Apesar do silêncio da rua que permitia ouvir os nossos passos, apercebemo-nos da actividade que entra pela noite dentro, nas lavandarias, nas lojas, nos restaurantes que preparam tudo para o dia seguinte.

A essa hora os cafés estavam fechados mas as esplanadas mantinham-se montadas com as mesas atoalhadas e as cadeiras estofadas. É essa a melhor altura para os gatos saborearem o lugar que de dia lhes é negado. Vantagem da noite!

Vivemos outras belas noites em Istambul, mas esta deambulação serena e segura pela zona mais antiga da cidade mantém todo o deslumbramento de uma noite inaugural.

O que dizem de Istambul 3

Terça-feira, 10 de Agosto, 2010

Descem-se as colinas íngremes de Beyoglu, os subúrbios tristes e silenciosos rente às casas de madeira com janelas em sacada, e logo se desemboca na Ponte Galata e na confluência de águas simétricas do Bósforo e do beco do Corno de Oiro, que divide Istambul em duas partes. Um longo mar navegado por vapur e mais um número incontável de embarcações, de navios cisterna a cargueiros escuros e ferrugentos, de fragatas a barcos de passageiros. Através dos prédios, começam logo a divisar-se as silhuetas da cidade velha, paisagem interminável que se espraia da colina do Palácio de Topkapi ao farol da Ponta do Serralho, a célebre “paisagem de Istambul” que enamorou um sem número de pintores impressionistas, como Dufy ou o ilustrador alemão Melling (e o próprio Pamuk, no seu pretérito artístico). Paisagem onde figuram ainda os seis minaretes da mesquita Azul e as “chaminés” de Aya Sophia, a catedral-mesquita, obra-prima bizantina usurpada na sua fé após a queda de Constantinopla nas mãos dos otomanos. É à medida que se desce o olhar (como se descerrassem as cortinas para a soirée) que a cidade nos acontece.

Tiago Salazar, As Rotas do Sonho, 2010

Canção de embalar

Sábado, 31 de Julho, 2010

Quando publicámos os três turcos timbres, mão amiga fez-nos chegar uma canção de embalar que é muito popular na Turquia. Tal como as canções de embalar de outras culturas, esta tem por objectivo favorecer o sono do bebé e, por isso, as cadências repetem-se docemente.

Este belo filme animado faz parte de uma série de canções de embalar recolhidas pela Metronome Film, um projecto idealizado e produzido por Arsen Gottlieb e dirigido por Elizaveta Skvorcova. Neste momento, já existem filmes para canções de embalar de cerca de vinte países (Rússia, Alemanha, Turquia, Grécia, Japão, Canadá, Índia …).

Vale mesmo a pena ver e ouvir  a canção Dandini dandini dastana cantada por Mircan Kaya.

https://www.youtube.com/watch?v=GQ11XiD0rlk

Aqui ficam as letras em turco e uma tradução em inglês

Dandini Dandini Dastana

Dandini dandini danalı bebek
Mini mini elleri kınalı bebek
Annesi babası çok sever
Uyur, büyür…nazlı bebek

Dandini dandini dastana
Danalar girmiş bostana
Kov bostancı danayı
Yemesin lahanayı

Dandini dandini danadan
Bir ay doğmuş Anadan
Kaçınmamış Yaradan
Mevlam korusun Nazardan

Segue-se a tradução em inglês

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Rosas turcas

Sábado, 24 de Julho, 2010

As montras das pastelarias  de Istambul iluminadas ao fim da tarde são irresistíveis porque é nessa hora que as baclava e os lokum brilham mais dourados e luminosos. Quase a chegar à ponte Gálata, parámos para olhar as doces geometrias numa montra e quando nos preparávamos para tirar mais uma fotografia da doçaria bem encenada, alguém vem de dentro e oferece-nos dois lokums róseos: “Provem rosas turcas!”. Apesar daquele não ser o melhor aperitivo para o jantar que se aproximava, não resistimos ao convite daquele homem que esperava expectante pela nossa opinião. A massa de açúcar foi-se desfazendo lentamente na boca e, pela primeira vez, provámos rosas que juraríamos ser vermelhas. Alguma coisa naquele sabor perfumado nos remetia para a cor forte de veludo macio.

O homem não nos queria vender delícias turcas. Pensamos que, ao ver-nos disponíveis por detrás do vidro da montra a admirar os doces patamares, lhe apeteceu conversar. E assim aconteceu: ouvimos durante mais de vinte minutos um turco de meia idade a discorrer sobre as rosas da Turquia. Soubemos então que existem mais de vinte espécies nativas de rosas turcas e que algumas delas crescem até em dunas de areia. As gul (rosa em turco) são usadas para vários fins mas destaca-se pelo seu valor económico e cultural a produção de attar de rosas que em árabe quer dizer fragrância. Colhidas ao nascer do sol, as pétalas são destiladas para se separar a água dos óleos essenciais. Foram os turcos otomanos que desenvolveram este processo e o espalharam pelas várias províncias do seu império por mais de cinco séculos.  Para se produzir um kg de óleo são necessárias quatro toneladas de rosas o que aproxima  o preço deste produto do preço do ouro. Tem origem na Turquia mais de 60% do óleo produzido no mundo.

A conversa prometia futuro mas o nosso compromisso para o jantar apressou o fim. Prometemos voltar um dia para comprar lokums de rosas e continuar a ouvir as histórias das rosas turcas que se combinam com a História da Turquia.

A partir desse fim de tarde, passámos a dar mais atenção ao lugar das rosas na vida e na cultura turcas. Estão presentes nos tapetes, nos azulejos, nos ornamentos em pedra e gesso em casas e palácios, na cerâmica, nas roupas preciosas  dos sultões, na joalharia, nas lajes dos cemitérios … Nos mercados, as pétalas de rosas combinadas sugerem chás perfumados, os óleos das massagens frescura e relaxamento, o perfume de rosas promete memórias persistentes.

Outros testemunhos conduziram-nos à culinária: as rosas são usadas em várias receitas, destacando-se a geleia de pétalas de rosas e o pudim de Noé. A receita da geleia, excelente no pão ao pequeno almoço, e a história do Noé seguem no atalho já a seguir!

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Turcos timbres (3)

Quarta-feira, 14 de Julho, 2010

Ainda fazem parte do duplo CD “Istanbul Twilight”, os Orient Expressions.  No videoclip, um passeio pelas ruas de Istambul de noite e de dia: as pessoas, as fachadas, o Bósforo, a cidade através das imagens do filme de : “Crossing the Bridge – The sound of Istanbul”. A ver e ouvir  AQUI

Bala Zula com Brenna MacCrimmon

A bordo de um vapur, um dos mais famosos grupos musicais turcos: Bala Zula com Brenna MacCrimmon apresentam o tema ” Cecom”  AQUI . As últimas cenas são do filme “”Crossing the Bridge: Sound of Istanbul”. As legendas são em alemão! Transcrevemos a letra em turco porque pode haver algum voluntário que traduza o que pensamos ser um belo texto:

ben bir bülbül olsam ötsem bahçelerde
her türkümde yaksam adını üzerine
her sabah $akırım gülüm
gülüm ninna ni na nay… (burayı salladım)

ben bir martı olsam uçsam denizlere
rüzgarlara açsam giderim sehere (burayı da salladım)
her kanadımı çarpışta,
gülüm ninna ne na nay

(kaynak/source: ekşi sözlük)

Turcos timbres (2)

Quarta-feira, 7 de Julho, 2010

O álbum “Twilight Istanbul” integra um segundo vídeo “Engeval” realizado por Veysel Gençten e com música de Mercan Dede. O vídeo é composto por  7500 fotografias tiradas pelo realizador desde 2002. O ritmo é frenético como se pode provar AQUI

Arkın Ilıcalı, mais conhecido por Mercan Dede, nasceu em 1966 em Bursa na Turquia e integra vários grupos:  Mercan Dede Trio, Mercan Dede Ensemble,  Secret Tribe, etc.  É também conhecido como DJ Arkin Allen. A música que compõe funde a acústica tradicional turca com sons electrónicos. É presença frequente nos mais importantes festivais de jazz e de “world music” que se realizam em vários países.

Para além dos instrumentos que a tecnologia actual disponibiliza, Mercan Dede privilegia um tipo de flauta tradicional  turca, a “ney”, porque considera que lhe permite “evocar sentimentos profundos” e porque “fala a linguagem do amor”. A temática sufi está presente nas suas preocupações e os dervish aparecem em muitos dos seus concertos. Os mais puristas criticam alguns registos de Mercan Dede, mas sem dúvida que ele tem levado as palavras e a moderna música turca bem longe.

Sugerimos vivamente o visionamento do clip da música Mercan Dede Istambul AQUI . Para além da música vale pelo design gráfico.

Turcos timbres (1)

Terça-feira, 29 de Junho, 2010

Que fique claro: não conhecemos a música turca! Gostamos desde há muito tempo dos sons exóticos, do ambiente da música daquelas bandas. Num dicionário de sinónimos encontrámos outras palavras para “exótico”: extravagante, excêntrico,  estrambólico, singular, fantástico: … De todas as palavras singular é o termo que mais se aproxima da imagem que temos da música turca.

Percebemos que os cantores e as bandas actuais fazem actualmente o que se pode designar por música de fusão em que os sons da música tradicional turca se misturam com as várias correntes da música contemporânea: jazz, rock, pop, funky, rap, música electrónica …

Já dissemos no post em que comentámos a nossa exposição de fotografia que teve lugar na FNAC (“Aquele chão”) que foi o Pedro que escolheu para música de fundo o duplo CD “Istanbul Twighlight”

Foi uma verdadeira descoberta! Para além dos 21 temas que constituem o álbum (reproduzimos o índice mais abaixo)  há dois vídeos excelentes. Um deles é “Gara Guna” do realizador Gurkan Keltec. A música é de um autor anónimo. A ver e ouvir AQUI

Tracklist de “Twilihgt istambul”

CD 1
01. Intro – Orient Expressions
02. Ab-i Beste – Mercan Dede featuring ozcan Deniz
03. Cecom – Baba Zula featuring Brenna McCrimmon
04. Bicare – Taksim Trio
05. Ennio – Ilhan Ersahin
06. Love – Craig Harris & the nation if imagination featuring Barbaros Erkose & Carla Cook
07. Bir Demet Yasemen – SOS
08. Ben Seni in Dub – Shantel vs. Kazim Koyuncu
09. Opaz – Burhan ocal & Trakya All Stars featuring Smadj
10. Gozyasi – Selim Sesler
11. Kanun Solo – Taksim Trio

CD 2
01. Maziden – Orhan Osman
02. Arda Kalan – Cahit Berkay & Grup Zan
03. Dem – Mercan Dede featuring Azam Ali
04. Sehristan – Orient Expressions
05. Bogazici – Burhan ocal
06. Islak Sevdalilar – Baba Zula
07. Gara Guna – Burhan ocal & Trakya All Stars featuring Smadj
08. Engewal – Mercan Dede
09. Baglama Solo – Taksim Trio
10. Outro – Orient Expressions