Por cá, por lá

28 de Janeiro, 2011

São cada vez mais frequentes e significativos os eventos que reflectem uma troca intensa entre Portugal e a Turquia. O facto de Istambul ter sido a Capital Europeia da Cultura e o processo de aproximação à União Europeia explicam parte deste acontecer.
Desta vez falamos de Istambul, da Turquia a partir de várias vozes: de uma exposição de fotografia, da proposta de férias culturais na Turquia, da gastronomia turca no seu melhor no Porto e em Lisboa e de um grupo do facebook. É este menu variado que passamos a apresentar. Comecemos pela mesa!

O Ocidente e o Oriente à mesa

No âmbito da 3ª Conferência Internacional de Enoturismo que decorrerá no Porto de 31 Janeiro a 3 Fevereiro, as gastronomias portuguesa e turca vão encontrar-se e procurar explorar os sabores do Ocidente e do Oriente. Dois chefes representam Portugal: Albano Lourenço (Restaurante Boca do Lobo do Hotel Infante Sagres – dia 2 e 3 de Fevereiro, jantar) e Joachim Koerper (Restaurante Eleven – dia 5 e 7 almoço e jantar).

De Istambul vem o célebre chefe Musa Dagdeviren que à mesa do restaurante “Çiya” inova a gastronomia turca recuperando receitas e modos de cozinhar há muito perdidos no tempo. É por isso, que o New Yorker titula um artigo que lhe dedica, The Memory Kitchen.


Este chefe defende uma opinião que há muito partilhamos: a gastronomia mais saborosa é a cozinhada pelas classes sociais com mais dificuldades económicas porque é preciso muito empenho e imaginação para transformar alimentos “mais pobres” em deliciosas refeições. Musa afirma que as pessoas com menor poder de compra investem na comida, “criam com alma e beleza interior”.

Vamos tentar acompanhar a vinda de Musa Dagdeviren a Portugal e dar notícias. Esperamos que aos temperos das gastronomias turca e portuguesa se juntem os temperos dos afectos e das emoções. Afinal, o que se come e como se come diz muito sobre os povos e as suas culturas.

Férias culturais na Turquia

Foi no âmbito da capital Europeia da Cultura que a Associação de Amizade Luso – Turca organizou o “Encontro de Verão Turquia-Portugal 2010″. A ideia é proporcionar outra vez um Verão multicultural em que os participantes desenvolvam um conjunto diversificado de actividades: cursos de língua turca (níveis básico e intermédio leccionados na Universidade de Fatih), workshops artísticos (música com Ney, pintura Ebru, caligrafia, decoração Tezhip), visitas aos principais centros histórico-culturais de Istambul e de outras cidades, degustação das tradicionais ementas turcas, etc.

É Associação de Amizade Luso-Turca que assegura a marcação do alojamento, do transporte no interior da Turquia, dos cursos e das visitas guiadas. A marcação da viagem de ida e volta fica a cargo dos participantes, mas há preços especiais pela Turkish Airlines que tem uma parceria com a Associação.
Informações sobre preços e outras condições podem ser obtidas directamente na sede da Associação de Lisboa (213012064) ou do Porto (226103917) ou através do email info@turquiaportugal.com .
As vagas para este programa de Verão são limitadas.

Istambul em Lisboa

Inaugura no dia 5 de Fevereiro, às 16:00, a exposição colectiva de fotografia “Istambul” com a participação de: Sonja Valentina, Teresa Lamas Serra, Dália Diegues, Filipe Mota Rebelo e Orlando Rebelo. No dia 5, cinco fotógrafos expõem cinco formas diferentes de ver e viver Istambul.
De comum, têm o mesmo deslumbramento pela cidade que se divide nos dois continentes. Aqui ficam dois dos trabalhos, um de Teresa Lamas Serra, o outro de Orlando Rebelo.

Para verem mais olhares destes e dos outros fotógrafos têm um mês. Parte de Istambul, morará nas paredes da Associação de Amizade Luso-Turca, na Avenida da República 49 2º, em Lisboa.

Lá & Cá no facebook

Criámos há alguns meses no facebook o grupo Lá & Cá Turquia & Portugal que conta já com mais de 400 membros. É um grupo que se define assim: “Este é um espaço onde se possam partilhar impressões, experiências, fotografias e textos sobre a cidade de Istambul e sobre a Turquia. A viagem que se fez ou se deseja fazer a este lugar do mundo é um bom estímulo para a colaboração.”

Tem sido muito motivadora a troca de informações que se faz directamente nos posts do grupo e nas mensagens. Tem sido bom saber que esse espaço contribui também para levar mais pessoas a conhecer a cidade e o país. Aqui fica a informação e o convite para que viajantes e andarilhos que gostam de Istambul e da Turquia coloquem as suas imagens e registem as suas impressões.
O Lá & Cá mora AQUI.

E se tivesse ardido?

20 de Janeiro, 2011

A estação de Haydarpaşa, que fica no lado asiático da cidade, é um sítio que não se pode perder. Mas só fomos visitá-la no último dia por pressão de um turista vienense que encontrámos durante a visita à pequena Hagia Sophia. O ambiente do lugar levara-o a fazer-se à conversa porque as impressões fortes por vezes têm de ser partilhadas. Já no exterior, falámos das experiências em Istambul e por coincidência, partíamos no mesmo dia, ao fim da tarde. Dessa troca, achámos imperdoável que ele não tivesse subido até ao café Pierre Loti (ver o post de Setembro “O café Pierre Loti”); ele considerava que partir da cidade sem visitar a estação de Haydarpaşa era igualmente imperdoável.

A manhã ainda estava a começar e, por isso, prometemos não partir sem atravessar o Bósforo e procurar a estação. E foi assim, que apanhámos um ferry e deixámos a Europa rumo à Anatólia. A aproximação progressiva ao lugar aumentava a curiosidade pelo edifício que data de 1909 e que assenta em 1100 pilares de madeira com 21 metros cada um. Quando o ferry se aproximou avaliámos os efeitos do incêndio de 28 de Novembro do ano passado devido a um descuido durante as obras de recuperação que felizmente, só danificou os telhados das duas torres e o último piso. Naquele momento não pudemos deixar de pensar: e se tivesse ardido?

A estação de Haydarpaşa é uma obra de arquitectura imponente com uma estrutura neo-clássica da autoria de Otto Ritter e Helmut Conu. À primeira vista parece um grande e pesado castelo com duas torres mas a amplidão da mancha de água do Bósforo dá-lhe equilíbrio e leveza. As paredes de pedra lavrada são iluminadas pelos reflexos da água e pela luz do céu que se reflecte nos vidros das janelas e nos vitrais.

Quis o acaso que, no aeroporto, reencontrássemos o nosso turista vienense: ele tinha subido até ao Café Pierre Loti e agradeceu efusivamente o conselho pela experiência excepcional que viveu no topo da colina dos mortos. Nós, retribuímos-lhe o agradecimento e, como se costuma dizer pelas nossas bandas: ficámos quites!

Propomos, agora, uma visita breve através das nossas fotografias a uma parte do interior da estação de Haydarpaşa. Ficamos com vontade de voltar não só para rever com mais tempo o lugar mas partir em cómodos comboios para várias cidades da Turquia e, porque não, para outras paragens do Médio Oriente.

NOTA – A imponência e localização do edifício explicam a sua escolha para a produção de um extraordinário trabalho de mapping em 3D que inaugurou, há um ano, Istambul como a Capital Europeia da Cultura. Sugerimos vivamente o seu visionamento AQUI porque usufruem de uma experiência visual fantástica.

Beringelas, figos, conversas e

8 de Janeiro, 2011

Eveline Zoutendijk é uma holandesa com um percurso de vida muito peculiar. Tirou o Grande Diploma de chefe de cozinha no Le Cordon Bleu de Paris e integrou uma equipa de dezasseis homens na cozinha de um restaurante com estrelas Michelin, na Holanda. Trabalhou no Hotel St. Regis, em Nova Iorque e “abriu” o Four Seasons George V, em Paris. Em 1997, decide viajar pelo mundo e, em Maio desse ano, a Turquia causa-lhe um forte impressão.
Dois anos depois, toma uma decisão radical: mudar-se para Istambul e aí reorganizar a sua vida. Depois de várias experiências, decide abrir um espaço próprio – Cooking Alaturca – onde, para além de um restaurante, dá aulas de cozinha otomana.

Descobrimos este lugar no Google, quando procurávamos aulas de culinária turca. Consideramos que a gastronomia é uma das mais fortes manifestações da cultura de um povo e as experiências que já tínhamos tido noutras viagens mostraram que as aulas de culinária misturam os ingredientes prescritos nas receitas com a História do país.
Às 16:00 apresentaram-se os candidatos a aprendizes de feiticeiro na aventura da gastronomia otomana: dois jovens casais australianos e dois canadianos (pai e filho).
Eveline avisa que vamos ter que “meter a mão na massa” e, por isso, há que pôr aventais. O chefe turco Feysi, apesar do inglês elementar, fazia-se entender através de gestos eficazes. Os dois conseguiram que o grupo se organizasse e ao longo de duas horas preparámos cinco pratos.

Para além de uma deliciosa sopa de lentilhas vermelhas e bulgur com menta seca e pimento vermelho, preparámos uma entrada com espinafres e queijo a que se seguiu a perna de borrego abraseada e estufada com legumes e com um acompanhamento muito especial e que já reproduzimos várias vezes desde que chegámos: beringela fumada.

Merece, por isso, uma atenção especial: pega-se na beringela e coloca-se directamente sobre o fogo (na chama do fogão a gás ou no braseiro do churrasco) A beringela está pronta quando a pele se apresenta tostada e que se retira facilmente pegando pelo pé com a ajuda de uma faca. Corta-se aos pedacinhos e esmaga-se em puré com um garfo. Envolve-se com um pouco de molho bechamel e assim fica pronto um acompanhamento delicioso e com um sabor único. Se em Portugal se diz que há mais de 1000 maneiras de se cozinhar bacalhau os turcos utilizam a mesma expressão para a beringela. A fumada é uma das nossas preferidas.

Depois de tudo preparado fomos para a mesa onde se misturaram os cheiros das especiarias, os sabores surpreendentes, as experiências vividas em Istambul com histórias de vida tão diferentes mas tão parecidas no gosto pela boa culinária e pelo prazer de viver a cidade.

À sobremesa comemos figos recheados com nozes que fizemos estagiar numa calda de açúcar, água, um gomo de limão e cravinhos. Terminámos a refeição com um café turco que Feysi fez questão que preparássemos.

No fim, despedimo-nos; nós e os outros aprendizes, percebemos que seria difícil voltarmo-nos a encontrar. Mas talvez no Canadá e na Austrália a beringela fumada, a sopa de lentilhas, o borrego estufado ou os figos tenham trazido à memória as horas em que juntos partilhámos os sabores da cozinha otomana.

NOTA
O preço da sessão e do jantar é de cerca de 60€ por pessoa.
Localização – Akbiyik Caddesi 72ª, em Sultanahmet
Site – http://www.cookingalaturka.com/

Brilhos e cores

1 de Janeiro, 2011

Para começar o ano, nada melhor do que falarmos dos brilhos e das cores de Istambul. Não os brilhos e as cores dos mosaicos e das pinturas no interior das mesquitas ou das imagens dos livros com centenas de anos; não os brilhos e as cores que o pôr-do-sol empresta à cidade, nem os brilhos e as cores das romãs e das laranjas abertas, prontas para serem transformadas em sumo.

São os fios, as contas, os tecidos, as luminárias, as franjas que dirão os rosados acinzentados, os vermelhos fortes, os roxos profundos, os laranjas quentes, os verdes vibrantes …

Sem palavras, ficam as imagens de alguns brilhos e cores em Istambul.

A seguir há mais …

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Fomos à procura do que não existia …

29 de Dezembro, 2010

Foi isso que aconteceu: fomos à procura do que não existia e encontrámos/não encontrámos. Antes de regressarmos a Istambul, lemos o Museu da Inocência de Pamuk. Na página 15 o Nobel da Literatura turco dá-nos todas as indicações para encontrarmos o museu, incluindo um mapa.

O Museu da Inocência (Masumiyet Muzesi) seria um lugar especial que guardaria todos os objectos recolhidos por Kemal, testemunhos da desmedida paixão por Fusun. A história, passada entre Maio de 1975 e os últimos anos do século XX, conta-se rapidamente, sem que isso retire qualquer interesse a futuros leitores: Kemal é um jovem empresário filho de uma família abastada, frequenta os meios burgueses de Istambul e está noivo de Sibel, uma turca moderna que conhece bem a Europa. Passa parte do Verão numa casa nas margens do Bósforo (yalis) e com os seus amigos partilha uma admiração pelo modo de viver europeu. Perde-se – literalmente perde-se – de amores por uma prima afastada que é empregada de balcão.

Esta paixão obsessiva leva-o a recolher objectos que Fusun tocou ou usou e que ele guarda: beatas (mais de 4 000), travessões, brincos, lenços, sapatos, bilhetes de cinema e de autocarro, copos usados por ela. Com estes objectos decide preservar a sua paixão num museu, o que o leva a visitar 1743 museus do mundo para usar a metodologia mais adequada à sua constituição.

Pegámos no mapa e fomos à procura do museu que fora instalado na última residência de Fusun, na zona asiática de Istambul:
“A casa onde a família de Fusun, os Keskins, vivia ficava na esquina da Avenida de Çukurcuma (vulgarmente conhecida por “colina de Çukurcuma”) e da vereda conhecida por “Rua Dalgiç”. Como podem ver pelo mapa, uma caminhada de dez minutos separava as ruas sinuosas e inclinadas daquela zona de Beyoglu e da Avenida Istiklal”. (p. 358).

A descrição do percurso e o mapa incluído no livro levaram-nos facilmente ao local. Passámos pelo Hamman (banhos turcos) por onde Kemal tantas vezes passou para ver Fusun.

Na esquina da Avenida Çukurcuma com a Rua Dalgiç lá estava uma casa vermelha de três pisos que se destacava de todas as outras porque era evidente ter sido recentemente restaurada. A casa parecia vazia à espera do recheio. Em lugar algum havia qualquer sinal que indicasse ser ali o espaço onde Pamuk irá preservar a cidade das últimas décadas do século XX: postais, roupa interior, chávenas e tantos outros objectos de uso diário recolhidos pelo escritor ao longo dos anos.

Nas suas palavras, “Quero que o meu museu seja o museu da cidade, que inclua tudo, desde mapas das ruas, a fechaduras, a maçanetas de portas, passando por telefones públicos e o som das sirenes de nevoeiro”. Afinal, “documentos de uma Istambul que já não existe e um olhar poético ao passado da cidade através dos olhos de um apaixonado”, “Quero encher [o museu] modestamente com as coisas que fazem a cidade, que fazem qualquer cidade”.

As 639 páginas do romance são, assim, muito mais do que a história de um amor desmesurado de um homem por uma mulher: são antes de tudo a manifestação do amor por Istambul e o desejo de preservar a memória de uma cidade, de um tempo marcado pela nostalgia, pelo huzun.

A inauguração do museu está programada para 2011, um lugar entre a ficção e a realidade, um lugar que encontrámos/não encontrámos. Temos de voltar quando o Museu da Inocência abrir e mostrar a página 626 do livro onde está um bilhete que dá direito a uma entrada individual num lugar onde parte da memória sentimental de Pamuk reside.

E as mesquitas?

15 de Dezembro, 2010

Impossível falar de Istambul sem falar nas mesquitas. Não fazemos ideia de quantas existem na cidade, mas quando os muezin chamam para a oração, imaginamos centenas de minaretes de onde partem os apelos. Não conseguimos distinguir os sons originais dos respectivos ecos e, assim, continuamos sem saber quantas mesquitas Istambul tem. Visitámos alguns destes lugares onde os passos humanos não se ouvem porque os pés descalços sobre os tapetes não dão sinais, nem deixam pegadas.

Deixemos as mesquitas imperiais para outra altura porque a “Pequena Hagia Sofia” (Küçuk Ayasofya Camii) revelou-se um lugar particularmente especial: originalmente foi uma igreja ortodoxa – a Igreja de S. Sérgio e S. Baco – que foi transformada em mesquita durante o império otomano no século XVI. Da original construção (527-536) restam as inscrições gregas que perpetuam os nomes de Justiniano, da sua mulher Teodora e de S. Sérgio, patrono dos soldados romanos

Nesta mesquita que fica a cerca de 15 minutos da grande Mesquita Azul e de Hagia Sofia e a pouca distância do mar de Mármara o que nos impressionou foi o silêncio, a serenidade, a cor, o cruzamento de linhas e arcos e o jogo de luzes e sombras.

Pelas grades de uma janela, vislumbrámos um pequeno cemitério muçulmano. É aí que se encontra o túmulo do fundador da mesquita, Hüseyin Ağa.

Perdemo-nos na nave central a olhar o tecto e as galerias e a apreciar as luminárias e os azulejos. Mas acabámos presos por recantos, aberturas nas paredes, degraus gastos por tanto uso, pormenores dos rendilhados em pedra e até por um rosário pousado no chão.

Antes de sairmos, cumprimentámos com um breve aceno de cabeça o íman, a única pessoa presente enquanto estivemos na mesquita.

No exterior da mesquita há um pequeno jardim com uma fonte para as abluções e várias pequenas lojas. Algumas fotografias e breves comentários mostram alguns espaços e elementos da mesquita que foi outrora um dos mais importantes centros do império otomano.
A ver já a seguir.

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No Nardis

4 de Dezembro, 2010

A ideia era voltar ao Nardis Jazz Club independentemente de quem estivesse a tocar. Subir a ladeira íngreme que leva à Torre Gálata e partilhar música naquele espaço parecia um bom programa para a noite.

Em cena, Benny Lackner Trio que esteve há poucos meses no Hot Clube em Lisboa. O pianista, que vai mudando de formação, apresentou-se com Mathieu Chazarenc na bateria e Phil Donkin no baixo , portanto, um alemão, um francês e um norte-americano num palco turco. Apesar de termos ido com três horas de antecedência para reservar mesa, só conseguimos lugar no “balcão” do clube-bar. Percebemos que éramos os únicos estrangeiros numa sala cheia.

A localização não escolhida revelou-se uma vantagem: o som subiu limpo até ao primeiro andar, e foi bom acompanhar os músicos numa perspectiva pouco comum. Visto de cima, o piano lembrou que é um instrumento de cordas.


Para recordar ou conhecer a música tocada pelas diferentes formações deste pianista ver e ouvir AQUI

De volta a Istambul

2 de Dezembro, 2010

Chegámos ontem dia 1 ao fim da tarde e fomos surpreendidos com uma inesperada temperatura de cerca de 20º. A saída do aeroporto foi rápida mas a viagem até ao pequeno hotel na zona de Sultanahmet demorou mais de 30 min.O trânsito do aeroporto até ao centro é intenso e quase caótico. Chegados ao hotel, decidimos pousar as malas e satisfazer um desejo adiado: comer peixe frito num dos restaurantes da Ponte Gálata.

Atravessámos a ponte, como de costume, estava com a lotação de pescadores quase esgotada: dos dois lados, dezenas de canas de pesca eram observadas com atenção. O mais pequeno movimento provocava o sobressalto do proprietário e dos pescadores vizinhos, sempre em actividade constante: pôr isco, mudar chumbeiras, rematar fio, ajeitar o peixe pescado.

Descemos para a parte inferior da ponte onde restaurantes de peixe se alinham. Resistimos aos apelos dos que em turco parece que nos ofereciam peixe fresco a bom preço. Escolhemos o “Fish Point” pelo nome, por ser o último restaurante de uma das bandas e, sobretudo, por ter só clientes turcos. Pedimos peixe frito em pão. O empregado não escondeu a sua decepção: afinal, seria de esperar de turistas europeus mais arrojo.

Em poucos minutos chegou um pão aberto com o peixe à espreita acompanhado por uns farrapinhos de alface a dar o ar da sua graça. Como achamos que, quando comemos, comemos também o que está à volta, podemos dizer que o cenário assegurou um repasto de luxo: as mesquitas iluminadas por entre as casas, os vapur a navegar silenciosamente sobre o som das ondas do Bósforo … A cavala frita soube a divina iguaria.

Achamos que a noite não podia acabar ali: fomos à procura das doces baclava na rua Isketlal que, às 11 horas da noite, estava cheia de gente. Para finalizar em beleza, fomos beber um chá de maçã ao Café Ara, propriedade do grande fotógrafo Ara Guler. Numa das paredes estava uma das suas fotografias da Ponte Gálata com mais de 30 anos. Reconhecemo-la tal qual. Um dia destes, voltaremos com mais tempo à ponte e ao café.

Cemitérios

22 de Novembro, 2010

Confessamos que gostamos de cemitérios. Mesmo antes de serem descobertos como espaços a explorar do ponto de vista turístico, visitámos cemitérios porque são lugares onde se manifesta a cultura de um povo, onde se compreende a relação entre os vivos e os mortos e onde a arte e a natureza se misturam de uma forma muito particular.

São quatro os cemitérios que mais nos marcaram: Père-Lachaise (para muitos, o lugar mais romântico de Paris), o cemitério de Cólon em Havana (com uma monumental estatuária), o cemitério de Swokopmund  na Namíbia (onde o apartheid se mantém após a morte) e o cemitério de Eyüp em Istambul. Deixamos para um outro post a visita a este lugar. O que nos marcou em Istambul foi a forma como os vivos convivem nos cemitérios no centro da cidade. É disso que vamos falar.

Um cemitério turco é uma floresta de colunas de mármore branco de diferentes alturas. Em princípio o tamanho da coluna corresponde ao tamanho real do morto ainda que haja excepções: o estatuto social elevado pode elevar o tamanho da coluna atingindo, no caso de alguns sultões, dimensões não humanas. As colunas que terminam num turbante sinalizam um túmulo masculino; os florões estão reservados às mulheres. Das inscrições incompreensíveis gravadas no mármore só retiramos o efeito estético. Passeámos sem reservas por entre a floresta de túmulos e árvores usufruindo do efeito da mistura das formas e das cores branco e verde.

Mas há muito mais: quando há 12 anos visitámos pela primeira vez a cidade, tivemos uma experiência que nos espantou no sentido literal do termo: em pleno cemitério havia uma casa de chá com uma agradável esplanada. Sentamo-nos numa mesa entre turcos que cavaqueavam vidas (achámos nós!) e pedimos um café e um chá de menta.

Renovámos esta experiência que nos trouxe de novo o sentimento único da relação entre viver e morrer. De facto, nunca convivemos desta maneira num lugar onde, geralmente, domina apenas o silêncio e o recolhimento. Não seria preciso mais para estes cemitérios nos marcarem. Por isso, voltaremos a trazer aqui estes lugares.

Na cozinha

10 de Novembro, 2010

Descobrimos a beringela quando estivemos em Istambul há mais de 10 anos. Não se pode esquecer a gastronomia de um país que nos dá a conhecer o legume espelhado de cor e forma únicas. Tal como os portugueses, os turcos gostam de comer e de falar de comida. E muito há a dizer sobre o lugar do iogurte, das beringelas, do borrego e de tantas aromáticas especiarias. Lá chegaremos!

Para apreciar totalmente uma gastronomia não basta desfrutá-la: é preciso saber confeccionar pelo menos alguns dos seus pratos para podermos saborear melhor os seus segredos. Foi este espírito que nos levou a participar no workshop realizado no dia 6 na sede da Associação de Amizade Luso-Turca no Porto.

A orientadora da função culinária é uma jovem turca – Rukyie – que vive em Portugal há quase 6 anos e que com o seu marido gere o restaurante Istambul (Rua Entreparedes, Porto). Propôs-nos cozinhar uma sopa e “borek”de espinafres (o Google Tradutor não sugere tradução para o termo). Comecemos pelos borek que os turcos comem ao pequeno-almoço com chá, como entrada de uma refeição, ao lanche … enfim, todas as alturas são boas para comer borek. Mas passemos à acção.

Prepara-se a massa com farinha, água, sal e fermento de padeiro que repousa meia hora para levedar. Divide-se a massa em bolas que se estendem com um rolo formando círculos que são barrados generosamente com manteiga deixando-se repousar mais 5 minutos.

Prepara-se o recheio com espinafres cortados às tiras, queijo feta desfeito grosseiramente com as mãos e cebola picada. Mistura-se tudo muito bem.

Estende-se a massa num pano tornando-a o mais fina possível e espalha-se o recheio Enrola-se a massa sobre si mesma levantando o pano.

Formam-se espirais e levam-se ao forno num tabuleiro depois de pincelar a superfície com ovo. Retira-se quando a massa estiver dourada e estaladiça.

Gostamos dos borek crocantes com o seu recheio quente e o queijo feta fundido. Cabe experimentar os boreks frios que, no dizer de Rukyie, é a forma mais saborosa de comer estes rolos dourados. Passámos de seguida a confeccionar uma sopa (Tarhana Gorbasi), boa em qualquer época do ano mas especialmente reconfortante em dias de frio. No dia a seguir, fomos almoçar ao restaurante de Rukiye onde experimentámos algumas das especialidades turcas mais apreciadas pelos portugueses.

Segue-se a receita da sopa e algumas informações sobre o restaurante. Bom apetite, que é como quem diz: Afiyet olsun!

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