Canção de embalar

31 de Julho, 2010

Quando publicámos os três turcos timbres, mão amiga fez-nos chegar uma canção de embalar que é muito popular na Turquia. Tal como as canções de embalar de outras culturas, esta tem por objectivo favorecer o sono do bebé e, por isso, as cadências repetem-se docemente.

Este belo filme animado faz parte de uma série de canções de embalar recolhidas pela Metronome Film, um projecto idealizado e produzido por Arsen Gottlieb e dirigido por Elizaveta Skvorcova. Neste momento, já existem filmes para canções de embalar de cerca de vinte países (Rússia, Alemanha, Turquia, Grécia, Japão, Canadá, Índia …).

Vale mesmo a pena ver e ouvir  a canção Dandini dandini dastana cantada por Mircan Kaya.

https://www.youtube.com/watch?v=GQ11XiD0rlk

Aqui ficam as letras em turco e uma tradução em inglês

Dandini Dandini Dastana

Dandini dandini danalı bebek
Mini mini elleri kınalı bebek
Annesi babası çok sever
Uyur, büyür…nazlı bebek

Dandini dandini dastana
Danalar girmiş bostana
Kov bostancı danayı
Yemesin lahanayı

Dandini dandini danadan
Bir ay doğmuş Anadan
Kaçınmamış Yaradan
Mevlam korusun Nazardan

Segue-se a tradução em inglês

Ler o resto desta entrada

Rosas turcas

24 de Julho, 2010

As montras das pastelarias  de Istambul iluminadas ao fim da tarde são irresistíveis porque é nessa hora que as baclava e os lokum brilham mais dourados e luminosos. Quase a chegar à ponte Gálata, parámos para olhar as doces geometrias numa montra e quando nos preparávamos para tirar mais uma fotografia da doçaria bem encenada, alguém vem de dentro e oferece-nos dois lokums róseos: “Provem rosas turcas!”. Apesar daquele não ser o melhor aperitivo para o jantar que se aproximava, não resistimos ao convite daquele homem que esperava expectante pela nossa opinião. A massa de açúcar foi-se desfazendo lentamente na boca e, pela primeira vez, provámos rosas que juraríamos ser vermelhas. Alguma coisa naquele sabor perfumado nos remetia para a cor forte de veludo macio.

O homem não nos queria vender delícias turcas. Pensamos que, ao ver-nos disponíveis por detrás do vidro da montra a admirar os doces patamares, lhe apeteceu conversar. E assim aconteceu: ouvimos durante mais de vinte minutos um turco de meia idade a discorrer sobre as rosas da Turquia. Soubemos então que existem mais de vinte espécies nativas de rosas turcas e que algumas delas crescem até em dunas de areia. As gul (rosa em turco) são usadas para vários fins mas destaca-se pelo seu valor económico e cultural a produção de attar de rosas que em árabe quer dizer fragrância. Colhidas ao nascer do sol, as pétalas são destiladas para se separar a água dos óleos essenciais. Foram os turcos otomanos que desenvolveram este processo e o espalharam pelas várias províncias do seu império por mais de cinco séculos.  Para se produzir um kg de óleo são necessárias quatro toneladas de rosas o que aproxima  o preço deste produto do preço do ouro. Tem origem na Turquia mais de 60% do óleo produzido no mundo.

A conversa prometia futuro mas o nosso compromisso para o jantar apressou o fim. Prometemos voltar um dia para comprar lokums de rosas e continuar a ouvir as histórias das rosas turcas que se combinam com a História da Turquia.

A partir desse fim de tarde, passámos a dar mais atenção ao lugar das rosas na vida e na cultura turcas. Estão presentes nos tapetes, nos azulejos, nos ornamentos em pedra e gesso em casas e palácios, na cerâmica, nas roupas preciosas  dos sultões, na joalharia, nas lajes dos cemitérios … Nos mercados, as pétalas de rosas combinadas sugerem chás perfumados, os óleos das massagens frescura e relaxamento, o perfume de rosas promete memórias persistentes.

Outros testemunhos conduziram-nos à culinária: as rosas são usadas em várias receitas, destacando-se a geleia de pétalas de rosas e o pudim de Noé. A receita da geleia, excelente no pão ao pequeno almoço, e a história do Noé seguem no atalho já a seguir!

Ler o resto desta entrada

Turcos timbres (3)

14 de Julho, 2010

Ainda fazem parte do duplo CD “Istanbul Twilight”, os Orient Expressions.  No videoclip, um passeio pelas ruas de Istambul de noite e de dia: as pessoas, as fachadas, o Bósforo, a cidade através das imagens do filme de : “Crossing the Bridge – The sound of Istanbul”. A ver e ouvir  AQUI

Bala Zula com Brenna MacCrimmon

A bordo de um vapur, um dos mais famosos grupos musicais turcos: Bala Zula com Brenna MacCrimmon apresentam o tema ” Cecom”  AQUI . As últimas cenas são do filme “”Crossing the Bridge: Sound of Istanbul”. As legendas são em alemão! Transcrevemos a letra em turco porque pode haver algum voluntário que traduza o que pensamos ser um belo texto:

ben bir bülbül olsam ötsem bahçelerde
her türkümde yaksam adını üzerine
her sabah $akırım gülüm
gülüm ninna ni na nay… (burayı salladım)

ben bir martı olsam uçsam denizlere
rüzgarlara açsam giderim sehere (burayı da salladım)
her kanadımı çarpışta,
gülüm ninna ne na nay

(kaynak/source: ekşi sözlük)

Turcos timbres (2)

7 de Julho, 2010

O álbum “Twilight Istanbul” integra um segundo vídeo “Engeval” realizado por Veysel Gençten e com música de Mercan Dede. O vídeo é composto por  7500 fotografias tiradas pelo realizador desde 2002. O ritmo é frenético como se pode provar AQUI

Arkın Ilıcalı, mais conhecido por Mercan Dede, nasceu em 1966 em Bursa na Turquia e integra vários grupos:  Mercan Dede Trio, Mercan Dede Ensemble,  Secret Tribe, etc.  É também conhecido como DJ Arkin Allen. A música que compõe funde a acústica tradicional turca com sons electrónicos. É presença frequente nos mais importantes festivais de jazz e de “world music” que se realizam em vários países.

Para além dos instrumentos que a tecnologia actual disponibiliza, Mercan Dede privilegia um tipo de flauta tradicional  turca, a “ney”, porque considera que lhe permite “evocar sentimentos profundos” e porque “fala a linguagem do amor”. A temática sufi está presente nas suas preocupações e os dervish aparecem em muitos dos seus concertos. Os mais puristas criticam alguns registos de Mercan Dede, mas sem dúvida que ele tem levado as palavras e a moderna música turca bem longe.

Sugerimos vivamente o visionamento do clip da música Mercan Dede Istambul AQUI . Para além da música vale pelo design gráfico.

Turcos timbres (1)

29 de Junho, 2010

Que fique claro: não conhecemos a música turca! Gostamos desde há muito tempo dos sons exóticos, do ambiente da música daquelas bandas. Num dicionário de sinónimos encontrámos outras palavras para “exótico”: extravagante, excêntrico,  estrambólico, singular, fantástico: … De todas as palavras singular é o termo que mais se aproxima da imagem que temos da música turca.

Percebemos que os cantores e as bandas actuais fazem actualmente o que se pode designar por música de fusão em que os sons da música tradicional turca se misturam com as várias correntes da música contemporânea: jazz, rock, pop, funky, rap, música electrónica …

Já dissemos no post em que comentámos a nossa exposição de fotografia que teve lugar na FNAC (“Aquele chão”) que foi o Pedro que escolheu para música de fundo o duplo CD “Istanbul Twighlight”

Foi uma verdadeira descoberta! Para além dos 21 temas que constituem o álbum (reproduzimos o índice mais abaixo)  há dois vídeos excelentes. Um deles é “Gara Guna” do realizador Gurkan Keltec. A música é de um autor anónimo. A ver e ouvir AQUI

Tracklist de “Twilihgt istambul”

CD 1
01. Intro – Orient Expressions
02. Ab-i Beste – Mercan Dede featuring ozcan Deniz
03. Cecom – Baba Zula featuring Brenna McCrimmon
04. Bicare – Taksim Trio
05. Ennio – Ilhan Ersahin
06. Love – Craig Harris & the nation if imagination featuring Barbaros Erkose & Carla Cook
07. Bir Demet Yasemen – SOS
08. Ben Seni in Dub – Shantel vs. Kazim Koyuncu
09. Opaz – Burhan ocal & Trakya All Stars featuring Smadj
10. Gozyasi – Selim Sesler
11. Kanun Solo – Taksim Trio

CD 2
01. Maziden – Orhan Osman
02. Arda Kalan – Cahit Berkay & Grup Zan
03. Dem – Mercan Dede featuring Azam Ali
04. Sehristan – Orient Expressions
05. Bogazici – Burhan ocal
06. Islak Sevdalilar – Baba Zula
07. Gara Guna – Burhan ocal & Trakya All Stars featuring Smadj
08. Engewal – Mercan Dede
09. Baglama Solo – Taksim Trio
10. Outro – Orient Expressions

O Hipódromo de Constantinopla

24 de Junho, 2010

A caminho do hotel passávamos todos os dias pelo Hipódromo. A familiaridade do lugar impedia-nos de o ver, mas numa noite regressados de um passeio pelas bandas da ponte Galata, “descobrimos “o Hipódromo de Constantinopla, que hoje se chama  Sultanahmet Meydanı (Praça Sultão Ahmet).

Naquela hora estava vazio, silencioso, molhado, forrado a sépia pela luz amarela dos candeeiros. Olhámos como se fora a primeira vez o lugar que foi o centro desportivo e cultural de Constantinopla, a cidade de Constantino. Foi este imperador que transferiu o governo de Roma para Bizâncio transportando para a cidade obras provenientes de todo o mundo. A coluna da serpente, como é conhecida, veio do Templo de Apolo em Delfos, e era então rematada por uma bola dourada  suportada por três cabeças de serpente. Às cruzadas, guerras e saques só resistiu a coluna ondeada e algumas peças que se encontram no Museu Arqueológico de Istambul.

No centro da praça, ergue-se um enorme obelisco egípcio. O cume perde-se na escuridão da noite com os hieróglifos a lembrar a sua origem. Foi Teodósio, o Grande, que fez transportar nos finais do século IV o monumento em granito rosa que fazia parte do Templo de Karnak em Luxor (1500 a.C). Para registar a sua marca pessoal, Teodósio colocou o obelisco num pedestal de mármore com cenas do imperador e da sua família a apreciar as corridas..

É difícil imaginar aquele espaço original em forma de U com 100 000 espectadores que se emocionavam com as corridas de cavalos e que apoiavam as diferentes equipas: os Azuis, os Brancos, os Roxos , os Verdes … É difícil imaginar a pista de então decorada com estátuas de bronze de cavalos e de aurigas famosos. Tudo desapareceu! Mas é possível rever uma quadriga em bronze que ficava no extremo norte do Hipódromo de Constantinopla: os quatro cavalos estão na fachada da Catedral de S. Marcos. Precisamente: em Veneza.

Seguir as andanças de tantas obras saqueadas por todo o mundo daria, por certo um roteiro de viagem que só a História pode justificar.

Ler o resto desta entrada

O fim duma viagem é apenas o começo de outra.

19 de Junho, 2010

“O fim duma viagem é apenas o começo de outra.

É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que já se viu no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles.

É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

O viajante volta já.”

José Saramago, Viagem a Portugal

O Bósforo

15 de Junho, 2010

Foi através do diário2.com que soubemos que, no dia 14 de Junho, a página mais editada na Wikipedia foi Bósforo com 62 edições. Desconhecemos a causa deste interesse pelo estreito que marca o limite entre a Ásia e a Europa.

Em turco, Bósforo diz-se Bogaz que significa garganta. Ficamos, entretanto, a saber que Bósforo etimologicamente significa “passagem do boi” (de Βοῦς – boi  e πόρος – passagem) e mais uma vez é a mitologia grega que lhe associa uma narrativa. Zeus apaixonou-se por Io, sacerdotisa de Hera, e, para proteger a sua amada da fúria da sua mulher, o deus dos deuses transforma Io num boi. Apesar disso, Hera descobre tudo, persegue-a e, na sua fuga, Io atravessa a nado o estreito que liga o Mar de Mármara ao Mar Negro. A história ficou e o nome também.

Uma das experiências que dá a conhecer uma imagem única de Istambul é atravessar o Bósforo num vapur das linhas urbanas, o ferry usado pelos istambulenses nas suas constantes travessias de uma margem para outra.

Depois de termos comprado o bilhete na gare, atravessámos as zonas cobertas do vapur. São espaços confortáveis com amplas janelas para o exterior mas optámos pelo deck descoberto. O vento proyaz vindo do Mar Negro era frio de verdade, mas queríamos o contacto mais directo possível com o mar, as gaivotas e, sobretudo, com a cidade de ambos os lados.

Pamuk no seu livro Istambul – Memórias de uma cidade, no capítulo 6 Descoberta do Bósforo, recorda os passeios de barco que fazia na sua infância com Istambul desfilando à sua frente. E faz questão em esclarecer que “Esta massa de água que passa no coração da  cidade não pode em caso algum ser comparada com os canais de Amesterdão ou de Veneza, nem com os rios que sulcam Paris ou Roma: aqui há corrente, vento, profundeza, trevas”. Pelas suas palavras percebemos que a luz do Bósforo nas diferentes estações do ano transfigura a própria cidade. “O Bósforo é dotado de um espírito muito singular” .

Pamuk termina este capítulo dizendo: “A vida não pode ser assim tão má. Seja como for, afinal de contas podemos sempre ir dar um passeio para os lados do Bósforo”.

Livrarias em Istambul

8 de Junho, 2010

Uma das surpresas de Istambul são as livrarias. É fácil perdermo-nos nos espaços que são mais do que postos de venda de livros. A primeira que nós visitámos foi a livraria Robinson Crusoe que nos seus sacos em papel pardo regista o seguinte:

Robinson Crusoe

1. O herói do romance de Daniel Defoe, “ A vida e as extraordinárias aventuras de Robinson Crusoe”, publicado em 1719.

2. Uma livraria com um estilo muito próprio, localizada em Pera, Istambul, no nº 389 da rua Istiklal. Um armazém de livros escolhidos estabelecido em Setembro de 1994. Um arquivo onde se encontram livros à disposição, acessíveis a todos. Uma praça, ponto de encontro não só dos que olham e ouvem mas também dos que vêem e escutam. Uma livraria onde se vai não só para comprar livros mas para os procurar, perguntar por eles, percorrer e cheirar as folhas, e encontrar, descobrir e mesmo escrever livros”.

E se muitas vezes o texto publicitário é enganoso, neste caso é apropriado à realidade. Na livraria Robinson Crusoe perdemo-nos, literalmente, por entre os labirintos das prateleiras de madeira castanha escura. Dizem-nos que a livraria tem mais de 40 000 livros e nós acreditamos. Aproveitámos o lugar para comprarmos um livro de fotografia de Ara Guler e um livro de cozinha turca. Ficaram os olhos na secção de poesia turca e, no momento, achamos que faria todo o sentido aprendermos turco.

A Pandora, fica também na rua Istikâl bem perto da praça Taksim num prédio moderno. São três andares de livros em que os clássicos e a ficção contemporânea convivem. Não tivemos oportunidade de explorar todo o espaço porque entrámos uma hora antes de fechar, e uma hora neste lugar é quase nada.

Ficou por visitar a livraria Homer que nos foi vivamente recomendada: são mais 30 000 títulos especializados em arte, arqueologia, história e arquitectura. Tal como noutras situações, aqui está mais um motivo para regressar a Istambul.

Jazz em Istambul

30 de Maio, 2010

Foi ao subir a caminho da Torre Galata ao entardecer que descobrimos, por mero acaso, o Nardis Club Jazz. Para quem tinha na agenda assistir a um concerto de jazz em Istambul, foi um feliz acaso. Embora encerrado à hora a que passámos, alguém saía e nos informa do programa para a noite seguinte: duas guitarras: Önder Focan (www.focanjazz.com ) e Cem Tuncer (www.cemtuncer.com ) e um baixo, Harvey S (www.harvies.com ). Feitas as reservas, lá estávamos no dia seguinte. Fomos um pouco mais cedo para jantarmos e apreciarmos o ambiente.

O concerto consistiu num diálogo entre duas gerações de guitarristas em torno de standards que seguimos numa viagem de muitos reconhecimentos. Pelos programas passados e pelas propostas para as semanas seguintes percebemos por que razão o baixista norte-americano declarara que seria bom que em Nova Iorque houvesse muitos clubes com a qualidade do Nardis.

A memória desta noite no Nardis foi activada pelo anúncio do programa do 17º Festival de Jazz que se realiza em Istambul de 1 a 20 de Julho. É considerado um dos mais bem organizados festivais de jazz da Europa e este ano conta com um programa variado onde estará presente Chick Corea Freedom Band, Grace Jones entre muitos outros.

Ler o resto desta entrada